quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O TREM DA VIDA



               E quando acorda ela se vê sentada na estação de trem.
            Milhares de pessoas passando por ela, indo e vindo... Enquanto continua ali sentada naquele banco da área de embarque. Como ela havia chegado até ali era um mistério. Ela tinha a sensação de que há meses, ou talvez há anos estava vivendo no piloto automático. Sempre tão sobrecarregada com seus afazeres que nem ao menos quando dormia sua mente parava. Sonhava com o que fizera e já planeja tudo o que pretendia para o dia seguinte. Vivia o agora pensando no depois.

            Sua boa forma começou a ficar em segundo plano; sua saúde passou a ser negligenciada e seus relacionamentos tornaram-se superficiais. Afinal ela não tinha mais tempo, nem disposição para aprofundá-los.

            Um barulho perturbador tirou-a deste transe. Mais um trem que chegava, dentre tantos outros que já haviam chegado e partido.
            Ela sabia que uma hora ou outra ela teria que entrar em um deles, pois não poderia passar o resto de sua vida na estação... Só não sabia em qual deles deveria adentrar... Para onde ela deveria ir?

            Viu rostos conhecidos entrando em trens diferentes e se perguntou se deveria segui-los, afinal é sempre bom ter um amigo por perto. Mas sabia que este tipo de decisão deveria ser tomada com mais cautela... Ser balanceada de acordo com suas próprias necessidades e desejos e não naquilo que os outros achavam que era ideal pra ela.

            Outro trem parou e partiu, e assim diversos outros fizeram o mesmo... E então num ímpeto de coragem, ela levantou-se, respirou fundo e assim que as portas se abriram entrou. Ela já havia se cansado de ser coadjuvante na trama de sua vida! A partir de agora ela seria não só a atriz principal, como também a escritora de sua própria história!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

COM OS OLHOS DO CORAÇÃO - Parte Final




          Embora esta fosse mais uma quinta-feira como qualquer outra. Lívia sentia-se diferente... Algo estranho acontecia em seu coração... Era como se, de repente, ele sentisse sede... Era isso o coração dela estava sedento de algo que ela não conseguia identificar. Passou o dia pensando naquela sensação parecida com ansiedade, mas sem os aspectos negativos dela. E ao terminar mais um dia de serviço Lívia partiu em direção ao ponto de ônibus e como um peixe em busca de água, encheu Bianca de perguntas acerca do Deus que ela servia. Absorveu o máximo que podia e foi para casa calculando tudo.
            Lívia era uma pessoa muito racional e não se deixaria levar pelo calor da “emoção”, mas analisando cuidadosamente tudo o que ouvira durante a semana começou a entender o cerne da questão... Deus realmente existia. Então adormeceu se perguntando o que seria necessário para ser como Bianca, ter a paz que ela transmitia, a segurança que ela transbordava e o conforto que sentia mesmo em meio a situações tão desconfortantes.
            Na sexta-feira mal se despediu dos colegas de trabalho ao encerrar o expediente... Correu em direção ao ponto de ônibus e, embora ainda fosse cedo, Bianca já estava lá. E, embora estivesse pálida demais, trazia um lindo sorriso em seu rosto.
- Tudo bem, Bia... Você parece pálida, o que houve? Você está bem?
- Estou bem sim – disse sorrindo – Há dois dias não durmo por causa das fortes dores, mas estou bem sim, graças a Deus.
- Puxa, que pena... Posso te ajudar de alguma forma? – disse Lívia sem saber o que fazer
- Converse comigo... Adoro nossas conversas, me fazem esquecer as dores...
- Tenho mais algumas perguntas sobre Deus...
- Puxa, você não poderia começar um assunto melhor... Já me sinto aliviada... Se eu puder responder suas perguntas então ficarei mais feliz ainda...
- Sabe... e se eu quiser ser assim como você... o que preciso fazer? Tem alguma palavra mágica que tenho que dizer? Ou algo do gênero?
            Bianca caiu na gargalhada... Riu de uma forma até gostosa de apreciar... Assim que conseguiu se controlar respondeu:
- Na verdade você precisa declarar para Deus com sua própria boca sim. Dizer a Ele que o ama, se arrepende de ter vivido longe dEle e de seu Reino e que você quer que Ele governe sua vida... É importante que Ele ouça esta declaração de seus lábios, mas depois disso Ele estará mais preocupado com o que você é do que com o que você diz ser. Deus não olha aparências, Ele vê corações e atitudes.
- Mas tenho que mudar alguma coisa antes disso?
- Na verdade não, só precisar mudar de Reino, decidir deixar que Ele seja realmente o dono de sua vida... O resto das mudanças, que Ele achar necessárias, Ele mesmo vai operando aos poucos na sua vida.
            Lívia ficou ali sentada ao lado de Bianca simplesmente refletindo sobre toda sua semana. Seu ônibus chegou, virou-se para Bianca, deu um abraço apertado nela dizendo:
- Até ontem de manhã eu nem se quer tinha certeza se Deus existia... E hoje já sou grata a Ele por ter permitido te conhecer! Te amo, Bianca... Tenha um ótimo fim de semana!
- A gente não vai se ver mais... Mas daqui pra frente tudo o que precisa saber está na bíblia... Leia-a cotidianamente...
- Como assim a gente não vai se ver mais? Ah, sim... você diz por causa do meu carro que fica pronto na segunda, mas não se preocupe antes de ir pra casa passarei aqui todos os dias pra gente se ver e conversar um pouco.
- Tudo bem... Mas não se esqueça: nem sempre o que é ruim aos nossos olhos é de fato prejudicial... Deus faz coisas maravilhosas de modos que nem desconfiamos. Tenha um bom fim de semana!
            Lívia já estava entrando no ônibus e só pôde gritar “Pra você também!”. Ela realmente concordava com Bianca, afinal seu carro ter quebrado (o que parecia ruim a princípio) foi a melhor coisa que lhe aconteceu.
            No sábado praticamente tudo fugiu de seu controle, teve inúmeros contratempos e até “bolo” de sua melhor amiga tomou... À noite, tomada por uma sensação estranha de desespero, sentiu que não podia mais viver daquela forma. E de joelhos no chão, ao lado da cama entregou seu coração ao Deus que outrora nem se quer acreditava existir. Dormiu como uma criança trocada e bem alimentada. E então teve o primeiro fim de semana graciosamente em paz... o primeiro de muitos que ainda viriam.
            Na segunda-feira buscou seu carro antes mesmo de ir para o serviço. E ao sair, no final do expediente, foi diretamente para o ponto de ônibus... Estava ansiosa em contar a Bianca sobre seu fim de semana com Deus.
            Assim que começou a estacionar já avistou o cachecol de Bia, aquela combinação de cores era inconfundível. Mas não estava em seu pescoço, estava em suas mãos. Ao descer do carro e olhar melhor viu que aquela pessoa parecia um pouco grande para ser Bianca. Apressou os passos e ao chegar ao banco viu a mãe de Bianca sentada, com os cotovelos apoiados em seus joelhos e olhando fixamente para o cachecol que acariciava em suas mãos.
            O coração de Lívia se encolheu no peito, atrofiou-se a ponto de faltar-lhe o ar... Ela não queria acreditar no que aquilo poderia significar. Sentou-se ao lado da mulher de olhos vermelhos e arriscou:
- Tudo bem com você? Onde está Bia?
- Ela... Ela se foi... Faleceu no sábado a noite... Ainda é difícil de acreditar... – disse a mãe de Bianca com voz rouca de quem já havia chorado demais.
- Puxa, sinto muito... – E então Lívia não conseguiu dizer mais nem uma palavra se quer... Desatou a chorar copiosamente, como se tivesse perdido sua irmã caçula. Tamanha era a intensidade de seu choro que até mesmo a mão de Bia quis consolá-la. Ela passou o braço direito ao redor de Lívia e disse:
- Calma, tudo vai ficar bem... Ela está melhor agora... Ela teve muitas dores nestes últimos dias, mas agora tudo passou. No sábado à tarde, antes de entrar em coma ela me disse que achava que sua missão na terra havia se cumprido... Que ela já havia feito tudo o que podia em relação aos planos de Deus... Ela sabia que morreria naquela noite. Acho que já ouvia a voz de Deus a chamá-la...
            Lívia tentou se acalmar para não assustar a mulher, mas seu coração doía... A pessoa que tinha sido usada para trazer sentido a sua vida agora havia partido. Respirou fundo para amenizar o choro e assim que levantou seus olhou a mãe de Bianca disse:
- Sabe... quando meu coração começa a doer de saudades eu penso que agora ela está no céu VENDO Jesus face a face... Não consigo imaginá-la mais feliz que isso! Por isso te digo: ela está bem, bem melhor agora...
            As duas ainda ficaram ali sentadas por um bom tempo conversando sobre Bia e a alegria que ela trouxe para a vida das duas. Estava nascendo ali uma nova amizade... E Bia, bom esta estava tendo a melhor visão de sua existência.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

COM OS OLHOS DO CORAÇÃO - Parte III


Na quarta-feira Lívia nem viu a hora passar no serviço, estava abarrotada de coisas para fazer. E como de costume, saiu vários minutinhos mais tarde do que seu real horário de sair.
            Saiu para a rua ainda organizando vários papéis dentro de sua pasta, chegou até derrubar alguns, mas um senhor muito gentil que estava passando pegou do chão para ela. Livia agradeceu e se apressou em direção ao ponto de ônibus.
            Ao chegar, toda esbaforida, foi logo se sentando:
- Achei que não viria hoje – comentou Bianca sentada no mesmo lugar de sempre com roupas de inverno e o lindo cachecol que sua mãe lhe fizera.
- Atrasei um pouco por causa de alguns relatórios que tive que terminar ainda hoje... Tudo bem contigo? – Lívia perguntou dando um beijinho no rosto de Bianca, como se fossem amigas a há meses.
- Estou bem sim, graças a Deus! – Abriu um sorriso largo expressando gratidão pelo beijo que ganhara.
- Sabe, e por falar em Deus... Fiquei pensando naquilo que você me disse ontem...
- No que exatamente – interrompeu Bianca tentando entender o que Lívia queria dizer
- Sobre você falar com Deus, a Síndrome e tudo o mais... Já que você fala com Ele e Ele até conversa contigo... Por que você não pede para Ele te curar? Ouvi dizer que Ele pode fazer coisas impossíveis...
            Bianca riu, com muita graça e respondeu serenamente:
- Sabe no começo... Logo que aprendi a me relacionar com Ele eu pedi sim... Pedi muito. E sei que Ele realmente pode fazer o impossível acontecer, eu já presenciei muitos milagres sendo realizados, mas Deus não faz as coisas simplesmente porque pedimos. Deus tem planos muito maiores, que às vezes a gente não consegue entender porque nossa mente é humana... é muito limitada em relação a um Deus todo-poderoso criador de todas as coisas.
- Mas que propósito poderia ter Deus que incluísse sua doença?!?
- Olha, pelo fato de esta Síndrome ser rara, eu já apareci na televisão, já dei entrevista para telejornais e programas de rádio... E em todas as oportunidades que tive eu falei sobre a graça, a misericórdia e o amor de Deus... E tem mais... Se eu não tivesse esta síndrome, talvez eu não o tivesse buscado, não teria esse relacionamento lindo que tenho com Ele... Se eu não fosse tão debilitada, minha mãe não teria que comprar alimentos fresquinhos para mim todo o dia naquela quitanda, então com certeza eu não ficaria neste banco, não teria conhecido você... Portanto você não estaria neste momento ouvindo das maravilhas que Ele pode fazer quando entregamos nosso coração a Ele.
            Lívia ficou em estado de choque. A garota tinha razão... Lívia jamais deu atenção alguma para qualquer pessoa que se quer tentou falar de Deus para ela. Lívia tivera pai alcoólatra que batia na mãe, por isso desde bem nova desacreditava na existência de um Deus amoroso. E sempre que ouvia falar de Deus Pai... Bem a imagem de pai que tinha não era das melhores. Ela engoliu em seco se perguntando se seria esta a razão de tudo aquilo estar acontecendo, seu carro quebrado, ter que pegar ônibus naquele ponto, ter conhecido Bianca e todas as coisas que ela já tinha dito... Será que Deus estava querendo dizer algo para Lívia?
- Sabe, Líh – disse Bianca interrompendo a reflexão de Lívia – posso te chamar de Líh, não posso?
- Claro que sim, somos amigas agora, lembra?
            Aquelas palavras encheram o rosto de Bianca de alegria, a garota tateou o colo de Lívia procurando por sua mão, ao encontrá-la apertou-a contra o peito e agradeceu, logo em seguida continuou o que dizia:
- Você me perguntou sobre minhas conversas com Deus... E sobre pedir coisas para Ele... Sabe, tem algo que se fosse da vontade dEle eu gostaria que Ele fizesse... – a garota pausou –
- Poder enxergar novamente? – Arriscou Lívia diante da pausa da garota –
- Não... Na verdade eu pediria para que Ele, nem que fosse por alguns minutos, fizesse com que as pessoas pudessem ver o mundo como eu vejo... Sabe, existem tantas coisas que estão além do que podemos ver... Os olhos podem enganar... Foi assim que a serpente enganou Eva, fez com que ela visse o quão atraente era o fruto, e por causa disso Adão e Eva fecharam os olhos para o engano que havia por trás de tudo aquilo. Gostaria que as pessoas pudessem apreciar de forma mais intensa um afago, um beijo, uma brisa, o calor do sol, o cheiro de bolinho de chuva – Bianca riu ao dizer isso – Adoro bolinhos de chuva! E tudo o mais que não precisa ser visto, mas sim sentido e apreciado!
            Lívia estava chorando, não conseguira se controlar. Ao perceber, Bianca apertou sua mão contra o peito novamente e logo em seguida a abraçou. Ao sentir aqueles pequeninos braços a envolvê-la Lívia chorou mais ainda e ficou ali naquele abraço fofo e cheiroso por alguns minutos. E então o ônibus que ia para seu bairro chegou. Lívia tentou se recompor, se levantou, beijou a testa de Bianca e disse:
- Até amanhã, linda! A gente conversa mais amanhã.
- Até! Orarei por você esta noite, amiga. Saiba que Deus te ama muito.
            Lívia se virou para entrar no ônibus e lágrimas tornaram a verter de seus olhos. Começou a pensar que, na verdade, cega era ela e não a garota. Não parava de chorar... Ela não sabia ao certo o que estava acontecendo... Mas sabia que algo estava acontecendo em seu coração...



Para entender melhor, leia primeiro a Parte I: 
E a parte II:

segunda-feira, 4 de julho de 2011

COM OS OLHOS DO CORAÇÃO - Parte II

Para entender melhor, leia primeiro a parte I: 
              
              Embora tivesse chegado a uma irritação extrema no dia anterior, Lívia acordou bem. Tomou café e foi para a empresa com um humor bem melhor do que havia saído no dia anterior.
            Trabalhou o dia todo concentrada procurando não pensar muito em seus sentimentos. Na hora de sair, Lívia já estava em pé pegando seu cachecol quando seu supervisor entrou na sala.
- Posso falar com você? – perguntou já fechando a porta atrás de si.
            A vontade de Lívia era olhar para o relógio e perguntar “Agora?!?”, mas simplesmente fez um gesto com a cabeça dizendo que sim e logo apontou a cadeira para que ele se sentasse. Sem rodeios ele disse:
- Vim lhe dar os parabéns pelo projeto bem elaborado que montou, a diretoria adorou. Seu projeto foi escolhido e o estaremos adotando a partir da semana que vem, portanto estaremos marcando uma reunião contigo para maiores esclarecimentos.
- Ótimo. Obrigada – Lívia foi direta e objetiva.
            Seu supervisor levantou-se, ela também, logo em seguida e sem mais delongas saiu da empresa com um sorriso que não conseguiu evitar que fosse estampado em seu rosto.
            Ao chegar ao ponto de ônibus Lívia logo se sentou no banco que, desta vez, estava vazio, mas não demorou nem cinco minutos para que ela avistasse Bianca, acompanhada de sua mãe, caminhando em direção do mesmo banco em que se encontraram no dia anterior. Sua mãe deixou-a ali sentada avisando que voltaria logo.
- Olá – desta vez foi Lívia que começou o diálogo.
- Olá Lívia... Pelo jeito passou a raiva, não é? Melhoras no trabalho?
            Lívia se perguntou como ela podia perceber estas coisas? Ela nem se quer estava vendo o  sorriso em seu rosto... Mas com certeza percebera por causa do tom de voz.
- Sim. Meu supervisor veio falar comigo, me agradeceu, me elogiou e disse que marcará uma reunião com o quadro de diretores, o que significa que eles já sabem ou saberão que o projeto foi minha autoria.
- Que bom! Viu só, nada como um dia após o outro... Hoje você está usando um perfume diferente – disse Bianca aproximando-se a Lívia – Mas é muito bom também... Me lembra frutas.
- Obrigada. É porque este perfume é mais cítrico... – Lívia sentiu-se incomodada em somente agradecer e retribui com outro elogio – O seu cachecol é lindo, onde comprou?
- Minha mãe que fez pra mim – respondeu a garotinha acariciando o cachecol como se fosse um bichinho de pelúcia – Fui eu que escolhi as cores!
- Mas... Você conhece as cores? – Lívia perguntou inocentemente.
- Bom, confesso que escolhi as cores para o cachecol pelos nomes... Eu nasci com os olhos normais, mas não durou mais que um ano... Perdi a visão antes de aprender as cores. E não tenho memória de coisas que vi... a não ser o rosto de minha mãe... O vejo todos os dias na minha cabeça.
- Ah...- Lívia não sabia o que dizer exatamente, pois a garota não parecia estar se lamentando – Sua mãe é linda... Você também é.
- Obrigada! – respondeu com um largo sorriso no rosto – Aposto que você também é... Posso te ver? – Perguntou com as duas mãozinhas levantadas em direção ao rosto de Lívia.
            Bianca nem precisou dizer nada para que Lívia entendesse o que ela queria. Abaixou-se em direção as mãos de Bianca que, delicadamente acariciou o rosto de Lívia tocando olhos, nariz, boca, queixo e cabelos.
- Como imaginei... Você é linda! Adorei seu cabelo... é tão macio e cheiroso.
            Os olhos de Lívia se encheram de lágrimas; por frações de segundos se pegou analisando quantas e quantas vezes se deparou com coisas e pessoas belas, mas estava com a cabeça tão ocupada que não pode apreciá-las. Engoliu em seco antes que alguma lágrima rolasse, respirou fundo e perguntou:
- Como foi que...
- Que perdi a visão? – interrompeu Bianca livrando Lívia do constrangimento de ter que completar a pergunta – Tenho uma doença muito rara, se chama Síndrome de... Bom, nunca sei falar essa palavra, mas lembra um nome alemão. O médico disse que uma em cada dois milhões de pessoas tem. E eu tenho.
            Lívia não entendeu a princípio, mas parecia que a garota não estava revoltada por carregar esta síndrome. E então sua mágoa com Deus não lhe permitiu se calar:
- Não acha sacanagem da parte de Deus, entre dois milhões de pessoas Ele escolher justo você para dar esta síndrome?
- Sacanagem? Não... Já conversei muito com Deus a respeito de minha doença e sabe, Ele tem um jeito diferente de lidar com as coisas. Não pensa como a gente...
- Peraí... Você fala com Deus? E Ele te responde? – Lívia interrompeu abruptamente já se questionando acerca da sanidade mental da garota.
- Sim, todos os dias falo com Ele. E sim, Ele responde sim... Deus pode falar conosco de várias maneiras, especialmente através da bíblia e do Espírito Santo. Eu tenho uma bíblia em áudio... ouço todos os dias. Mas voltando ao que eu dizia, Deus nunca dá pra gente um fardo mais pesado do que a gente pode suportar e se Ele me deu esta síndrome é porque Ele me fez forte o suficiente para carregá-la. Então se você parar para pensar: Ele me acha especial; dentre dois milhões de pessoas Deus achou que eu poderia ter a síndrome. E porque eu não o culpei, e sempre busquei ajuda dEle, Ele mesmo me ensina dia-a-dia a lidar com ela.
- Olha, compreendo seu ponto de vista... E acho até que você pode ter razão, mas não sei se eu levaria numa boa, sem revoltas o fato de perder a visão
- Então, graças a Deus que ele tirou a minha e não a sua, não é mesmo?
            Lívia, muito icomodada,  parou para refletir e percebeu que estava recebendo lições de sabedorias de uma garota de 9 ou 10 anos... Como isso poderia ser possível? Ela mesma já vivera três vezes mais que Bianca e parecia não ter nem metade da percepção da garota.
- Tem algum outro sintoma além da perda da visão? – agora Lívia estava interessada –
- Nos primeiros anos foi somente a visão que foi estragando aos poucos, mas agora a síndrome já começou a atacar outras partes do corpo... Tenho tido muitas dores, mas graças a Deus eu tenho uma mãe muito forte que me ajuda a suportar... Mas ela tem sofrido muito... Tenho pedido a Deus para acelerar um pouco as coisas.
- Como assim acelerar as coisas?! O que você quis dizer com isso?
- Portadores desta síndrome não passam dos oito anos de idade... Eu já tenho dez... Mas isso porque já fiz inúmeros tratamentos até pra fora do país... Minha mãe vendeu tudo o que podia para tentar encontrar a cura... Mas não existe cura – Agora a garota estava cabisbaixava com voz pesarosa e os olhos marejados. Lívia sentiu-se mal por ter tocado no assunto.
- Não fique triste... A medicina está tão moderna e tudo acontece tão rápido, estou certa que em algum lugar do mundo alguém já deve ter feito algum progresso em pesquisas. E você está forte saudável... Ainda vai viver muitos anos...
- Não tenho medo de morrer, Lívia. Não fico triste por não existir cura... fico sentida em ver o quanto isso entristece minha mãe, o quanto minhas crises de dor a atormentam. A doença está matando meu corpo, mas também machucando a alma da mamãe. Falo sempre pra ela que as dificuldades nos fazem crescer e ficar mais fortes, mas acho que ela está chegando no limite dela... Por isso tenho pedido para Deus apressar as coisas.
- Não diga uma coisa dessa Bianca!
- Não diga o que? – perguntou a mãe de Bianca que acabara de chegar com uma sacola de frutas
- Que bom que chegou mãe, quero te apresentar minha nova amiga: Esta é Lívia.
            Assim que foram apresentadas o ônibus de Lívia chegou, ela se despediu e foi para casa. Tinha muita coisa para refletir... e foi isso que fez o resto da noite... E por alguns instantes chegou até mesmo pensar que a garota não era real... Mas era; real e sensata.


Agora leia a terceira parte:
http://aprendizdetrovador.blogspot.com/2011/07/com-os-olhos-do-coracao-parte-iii.html

quarta-feira, 29 de junho de 2011

COM OS OLHOS DO CORAÇÃO



           Lívia saía do trabalho mais tarde outra vez, porém desta vez ela estava mais irada que nunca. Passara três semanas dormindo pouco e se dedicando muito a um projeto que apresentara hoje no trabalho. Elogios? Não. Somente pressão nos dias anteriores para entregar tudo dentro do prazo. E para piorar as coisas seu supervisor acabara de apresentar o projeto para a diretoria da empresa tomando para si todo o crédito de sua elaboração.
            Ela estava tão zangada que até mesmo se esqueceu que seu carro estava na oficina e desceu até a garagem do prédio pensando encontrá-lo no mesmo lugar de sempre. Ao ver sua vaga vazia, Lívia recordou-se do rosto do mecânico dizendo: “Só vai ficar pronto semana que vem, moça”... E então ela soltou um urro de raiva. Recompôs-se e partiu pisando duro em direção ao ponto de ônibus mais próximo.
            O ponto ficava a apenas três quadras de seu trabalho; e ela tinha cerca de meia hora até o próximo ônibus para seu bairro. Mas a raiva era tão grande que seus passos eram rápidos e bruscos como de um soldado marchando em direção ao exército inimigo. Ao chegar, simplesmente jogou seu corpo no banco do ponto, mal reparou que já havia uma pessoa ali sentada.
- Por que tanta raiva, moça? – a pergunta vinha de seu lado
            Lívia virou-se para ver quem perguntava e viu uma garotinha de uns dez anos, no máximo, de calça jeans, um suéter de lã pink, cachecol todo colorido, gorro e óculos de sol. E mesmo, sem entender porque faria isso, Lívia acabou respondendo a pergunta da estranha ao seu lado:
- Tive um dia, ou melhor, uma semana... Não, foram três semanas de exigências e pressões. Fiz um trabalho perfeito e além de meu supervisor tomar o crédito pra si, não fez nem um elogio se quer ao meu esforço; disse apenas que eu havia cumprido com minha obrigação! Sabe o que é passar anos dando o seu melhor sem uma palavra de incentivo ou louvor?! – Ela praticamente vomitou todas estas palavras.
- O seu cheiro é muito bom, moça, lembra um jardim de flores na primavera – Comentou a garota com um sorriso tão brilhante que parecia refletir toda a luz do sol daquela fria tarde de inverno.
- Obrigada – Lívia respondeu meio sem graça.
- É a primeira vez que você pega o ônibus aqui, não é?
- Sim, meu carro quebrou – Lívia achou chato não retornar a pergunta – E você, o que faz sozinha em um ponto de ônibus?
- Estou esperando minha mãe, ela está naquela quitanda comprando frutas frescas pra mim – disse a garota apontando para uma oficina do outro lado da rua.
- Você quer dizer naquela quitanda – corrigiu Lívia apontando para uma quitanda que ficava uns dois estabelecimentos a direita do local apontado pela garota.
- Sim sim – respondeu a garotinha levemente constrangida.
            E só então Lívia reparou que em sua mão esquerda havia uma bengala guia daquelas usadas por pessoas portadoras de deficiência visual. Sentiu seu rosto corar de vergonha... Estava ali irada por não ter sido elogiada no trabalho e reclamando da vida para uma garotinha que nem se quer podia ver o quão bela estava aquela tarde de inverno.
- Oh... Sinto muito... eu não tinha percebido que... Puxa, sinto muito mesmo...
- Não precisa se desculpar, moça. Nem sentir pena de mim – parecia que a garota havia percebido pesar na voz de Lívia – Não enxergo... Só isso... Não é nada de mais. Veja, estou viva, bem agasalhada, posso sentir o calor do sol tocando meu rosto, posso ouvir o som harmônico de sua voz e também posso sentir o cheiro da grama aqui de trás misturado com seu suave aroma de flores. E ainda estou com o cachecol mais bonito que alguém poderia querer. Viu só quantos motivos para ser grata?
            Lívia sentiu cada palavra como se fossem bofetadas em seu rosto gelado pela brisa. Não conseguiu nem se quer responder. Engoliu em seco e, depois de vários segundos de silêncio perguntou:
- Como é seu nome?
- Bianca... E o seu?
- Lívia... prazer – ela disse já pegando a mão da garota que já estava estendida em sua direção.
- Quanto tempo seu carro vai ficar na oficina, Lívia?
- Uma semana
- Que bom! Vou ter companhia por uma semana. Gosto muito de conversar e não saio muito, mas venho aqui todos os dias neste mesmo horário... É o seu ônibus? – perguntou Bianca percebendo a distração de Lívia e o ronco do motor parando ali em frente.
- Sim, é este.
- Vai lá... Amanhã a gente conversa mais – disse Bianca acenando com um lindo sorriso nos lábios.
           Lívia não conseguiu tirar aquele rostinho lindo da cabeça durante todo o trajeto para sua casa... Aliás já em sua casa pensou várias vezes na atitude da garota. E quando foi para a cama deitou-se questionando como Deus permitia um ser tão angelical passar pela dificuldade de ser completamente cega... E então adormeceu.


Confiram a parte II: http://aprendizdetrovador.blogspot.com/2011/07/com-os-olhos-do-coracao-parte-ii.html

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Olhando na direção errada...


Tive uma adolescência conturbada... Não porque tenha passado necessidades, grandes traumas ou privações, mas é que tudo na adolescência é intenso. Ainda mais quando se é típica nerd reprimida, com poucas habilidades sociais.
                A guerra hormonal que acontece na puberdade é para o adolescente como um microscópio eletrônico, daqueles que permitem visualizar em telas gigantes moléculas minúsculas. Portanto uma espinha no meio da testa no fim de semana é motivo para verdadeiras crises de choro, gritaria e bater de porta... E se esta vier acompanhada de outra espinha interna e vermelha na bochecha, pronto... Aí se ouve frases dignas de novelas mexicanas do tipo: “Eu quero morreeeeeeeeer!” “Por que que eu nasci?!?”.
                A questão não é que eles exageram na hora de contar ou na reação. Eles realmente vêem e sentem tudo com intensidade quadruplicada, e não conseguem evitar. Uma vontade se torna em um desejo ardente, capaz de cegar. Um medo ou um receio se torna em uma fobia sufocante, capaz de fazer adoecer. Um simples obstáculos pode se transformar em uma verdadeira muralha praticamente intransponível aos olhos do adolescente. Eu era assim... (talvez ainda seja um pouco, mas isso é outra história).
                Lembro-me que tive alguns sonhos não realizados. Sonhos que tive medo de perseguir e fracassar, por isso simplesmente amarrei a um bloco de concreto e joguei nas águas agitadas de minha vida juvenil, o sepultei no mar de meu coração. Mas também tive sonhos consumidos por problemas que, aos meus olhos, não tinham solução. Sepultei ambos, o sonho e o obstáculo que o consumia! E essa atitude (talvez ligada com minha ausência de habilidades sociais) me fez sepultar muita coisa com as quais eu não soube lidar. E assim fui evitando tudo aquilo que, na verdade, precisava enfrentar.
                Mas Deus não gosta de casos mal resolvidos... E este ano resolveu colocar meu barco de volta nestas mesmas águas.Tudo era o mesmo, a paisagem, o barco, o calor do sol, a brisa, mas as águas... Não pareciam mais uma corredeira de se praticar rafting, mas sim um lago de águas tranqüilas e cristalinas. Na verdade as circunstâncias continuavam as mesmas, o que havia mudado era o meu coração... Que estava simplesmente em paz.
                Confesso que nos primeiros momentos fiquei ressabiada, olhando atentamente para as águas, pois só eu sabia tudo o que eu havia sepultado ali, e como aquelas águas já haviam sido agitadas e traiçoeiras! Em dado momento percebi um leve borbulhar nas águas próximo ao barco; meu coração gelou. Será que as águas voltariam a se agitar? Mas logo percebi que algo começou a subir à superfície e, então submergiu! Ali estava na minha frente um dos grandes sonhos que eu havia sepultado naquele lugar. Ele continuava tão grande como quando o sepultei, mas desta vez parecia estar mais perto... Ou meus braços que estavam maiores... Mas não importava, pois lá estava ele, cativante, parado na minha frente, então comecei a contemplar a hipótese que desta vez ele poderia ser meu; quando vi logo atrás dele outro burburinho de águas. Então me esforcei para rapidamente me lembrar que monstro (problema) me impedira de realizá-lo, pois me lembrava de tê-lo sepultado ali também. Não precisei pensar por muito tempo, pois em segundos ele saiu e se colocou ao lado do sonho. Mas ele sim parecia tão menor que outrora, tão ressequido... E percebi que aquele era o momento de enfrentá-lo... Olhei fixamente em seus olhos e com toda a fé que pude achar dentro de mim disse “Desta vez não... Você não vai roubar este sonho novamente!” Não precisei fazer mais nada além de crer, e como num passe de mágica ele explodiu se transformando em uma chuva de pétalas e exalando o inebriante cheiro da vitória. Acho que nunca tinha sentido este cheiro tão forte! Sem nem pensar duas vezes estiquei meus abraço e agarrei meu sonho, trazendo para dentro do barco. Naveguei por algum tempo ali só contemplando o sonho que agora poderia ser realizado.
                Não levou muito tempo pra que eu percebesse outro agitar de águas perto da ponta do barco. Nem ao menos tive tempo de pensar no que poderia ser e já pude avistar outro sonho na superfície da água. Puxa... e eu jurava que aquele sonho havia morrido! Mas ele havia sido simplesmente sepultado vivo. Meus olhos se encheram de lágrimas... lágrimas de felicidade, mal podia acreditar que Deus estava me dando este presente. Porém o êxtase não durou muito, porque logo ao lado do sonho submergiu o monstro que outrora o havia me roubado... Monstro este que também não enfrentei... Simplesmente sepultei!
                Diferente do outro que eu havia destruído, este parecia até maior e mais forte que no passado. Tentei encará-lo, ele se posicionou, tentei disfarçar, mas estremeci... Minha fé se abalou... Minhas mãos e meus lábios começaram a tremer, enquanto ele parecia envolver meu sonho em sua névoa. Então não consegui mais segurar, desabei a chorar copiosamente; abaixei a cabeça e nem se quer podia mais olhar naquela direção. Toda a dor que eu havia sepultado estava de volta e sentia como se nunca tivesse ido embora. Parecia tortura ver meu sonho tão perto e tão inacessível ao mesmo tempo... Cheguei a questionar, por que Deus permitiria tamanho sadismo em minha vida... E depois de muito chorar abri meus olhos mirados para o fundo do barco e percebi que não havia remos... “Espere um momento... eu nem se quer remei até aqui”... Embora o barco se movesse suavemente pelas águas havia a possibilidade de haver um motor, mas eu nem se quer havia tocado no “leme” de nenhum motor. Então me virei para trás olhando na direção do local onde se coloca o motor em um barco e lá estava ele. Sentado e com o leme em suas mãos; uma roupa simples, sandálias batidas nos pés, rosto sereno e um sorriso que iluminava mais que o próprio sol refletido nas águas.
                Como eu poderia não tê-lo notado ali? E então a resposta para minha pergunta veio de sua voz forte como uma rocha e ao mesmo tempo suave como uma pétala de rosa:
- Você estava olhando para a direção errada – E abriu um sorriso apaixonante – Não aprendeu nada com Pedro, querida?
                Aquele “querida” saindo de sua boca me fez sentir a pessoa mais amada do mundo!
- Quem está no controle do barco de sua vida agora sou Eu... Você me entregou o leme, não se lembra? – (É claro que sabia que eu tinha passado o governo de minha vida a Ele, mas às vezes os problemas nos fazem esquecer...) – Quanto aos desejos que brotam nas águas do seu coração, não precisa se preocupar, quando for a hora e o momento certo EU os trarei para dentro do barco, você nem se quer precisa mais lutar por eles. Não olhe mais para as águas, não olhe para os sonhos, muito menos para seus medos e dificuldades, olhe somente para o alvo.
                    Então me ajeitei no barco sentando-me agora de frente para ele e de costas para as águas... Para onde Ele me levará? Isso pouco importa! O importante é que agora sigo viagem olhando para o meu alvo: JESUS!

terça-feira, 12 de abril de 2011

CORAÇÃO FERIDO

 



          Joyce estava um tanto quanto frustrada. Sentada no banco de uma praça nem conseguia disfarçar seus sentimentos. Levou as mãos ao rosto reclinando sobre seus próprios joelhos por alguns segundos, apesar da náusea que sentia quase adormeceu ali... Mas foi levemente tocada em seu ombro direito.
- Tudo bem, moça? – um rapaz de óculos e boa aparência acabara de sentar-se ao seu lado.
- Sim... Quer saber... NÃO!
            Ela havia guardado tudo aquilo para si durante tanto tempo que não aguentava mais, então lá estava ela começando a se desabafar com um estranho.
- É o coração, não é moça?
- Está tão na cara assim? – Ela perguntou surpresa
- Sim – respondeu o moço com um sorriso simpático no rosto.
- Pois é... Sabe o que é amar tanto uma pessoa que acaba pensando mais nela do que em você mesmo?
- Claro que sei! – afirmou o moço convicto.
- Então... Sabe o que é acordar e dormir pensando em alguém... Suspirar de repente só por ter se lembrado dessa pessoa... Procurar instintivamente pela pessoa quando sente o cheiro do perfume que usa, mesmo que vindo de outra pessoa...
- Ouvir uma música e se lembrar desta pessoa.. Não... Na verdade ter uma música especial, mas lembrar-se da pessoa amada quando ao ouvir cada verso romântico de todas as músicas que ouvir... – Completou o moço viajando em seus pensamentos.
- Puxa... Isso mesmo! Ai, moço... Por que é que sempre tem que acabar? Por que homem gosta tanto de estragar relacionamentos?
            Antes mesmo que o rapaz se quer respirasse para responder suas perguntas Joyce disparou a falar.
- É tão bom receber telefonema no meio do dia e ouvir a voz de quem se ama; é tão bom dar e receber presentes e cartões em datas especiais (ou mesmo sem razão alguma), ter alguém para chamar de “meu bem”, andar de mãos dadas pela rua... não é? Ou os homens não gostam de nada disso??
- Não sei...
- Como assim não sabe? Você gosta??
- Não sei... Digo, devo gostar, mas não posso dizer que aprecio o sabor de algo que nunca provei, só imagino...
- Mas você parecia entender tanto de ter um grande amor na vida... – Joyce estava confusa.
- Sim, entendo de tudo aquilo que você estava dizendo antes porque me sentia assim em relação a uma mulher, mas o sentimento nunca foi recíproco. Por isso não sei com o é senti-la em meus braços, como é olhar diretamente em seus olhos enquanto ela diz que me ama. Não sei como é receber um telefonema dela nem ao menos sei como deve ser o toque de suas mãos... Portanto tendo acabado ou não, seja grata por tudo aquilo que experimentou e viveu, pois muito pior que ter um coração dolorido pelo fato de por um grande amor ter sofrido é nem se quer o amor ter vivido!
            Então o rapaz simplesmente se levantou, com os olhos marejados, deu as costas e partiu.
            Joyce engoliu em seco, se levantou e foi pra casa. Sentia-se envergonhada e compadecida ao mesmo tempo... Mais que isso... Sentia como se tivesse deixado seu coração ferido naquele banco e voltado pra sua casa com um coração curado.
            Ao anoitecer Joyce orou por aquele rapaz de quem nem se quer o nome sabia:
“Pai, obrigada por colocar aquele moço no meu caminho hoje para abrir meus olhos... Cura o coração dele como o Senhor fez com o meu hoje... E permita que ele viva um grande amor!”
            Naquela noite Joyce dormiu como um anjo... Enquanto isso em outro canto da cidade um anjo visitava um coração, mas isso... Isso é outra história!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Se O Amanhã Nunca Chegar

Já imaginou se esta canção tivesse sido composta pra você?



Algumas vezes tarde da noite
Eu fico acordado observando ela dormir
Ela está perdida entre lindos sonhos
Então eu apago as luzes e me deito na escuridão
E pensamentos passam por minha cabeça
E se eu não acordar amanhã?
Será que ela terá dúvidas de que a amei
Com todo o meu coração

Se não houver amanhã
Ela saberá o quanto eu a amei?
Será que eu tentei mostrar para ela todos os dias
Que ela é a minha única
E se meu tempo na Terra acabar
Ela terá que encarar o mundo sem mim
O amor que eu dei a ela no passado
Será suficiente
Se não houver amanhã?

Eu já perdi pessoas em minha vida
Que nunca souberam o quanto eu as amava
Agora eu vivo com o remorso de que
Meus verdadeiros sentimentos por elas nunca foram revelados
Então eu fiz uma promessa a mim mesmo
Dizer a cada dia o quanto ela significa para mim
E evitar aquela circunstância
Onde não há uma segunda chance para dizer o que eu sinto

Se não houver amanhã
Ela saberá o quanto eu a amei?
Será que eu tentei mostrar para ela todos os dias
Que ela é a minha única
E se meu tempo na Terra acabar
Ela terá que encarar o mundo sem mim
O amor que eu dei a ela no passado
Será suficiente
Se não houver amanhã?

Então diga a quem você ama
O que você pensa dela
Pois pode não haver amanhã

Apesar deste música ser do Garth Brooks, vale a pena assistir esta versão: 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Breakaway – Libertar-se


       Você entra em uma livraria certo de que quer comprar um livro romântico, então vai direto para a prateleira que ostenta um rótulo grande e visível “Romance”. Por que olharia para a prateleira de suspense? Não quer se assustar. Ou para a prateleira de contos? Não quer várias estórias curtas, mas apenas uma e que tenha final feliz... Quer simplesmente curtir a fácil e feliz história de um livro romântico. Então se mantém focado no título da prateleira. Mas... e se colocaram algum livro na prateleira errada? E se o melhor romance que você poderia ler foi colocado por acidente na prateleira de drama?
            Era assim que Bia se sentia, como um livro que fora colocado no lugar errado. As pessoas não pareciam compreende-la, mas também nem faziam muitos esforços para isso, simplesmente a julgavam pela capa. Sua aparência exterior não era uma reprodução fiel da pessoa que era por dentro, mas infelizmente Bia não sabia como refletir tudo aquilo que era de fato. Não tinha muita habilidade em expressar sentimentos e, na verdade, alguns ela até preferia manter escondidos simplesmente para se preservar.
            Bia morava com os pais e irmãos na mesma casa e cidade em que nasceu. Conhecia muita gente, mas era de fato conhecida por poucos... As pessoas preferiam se guiar por rótulos que se esforçar por conhecê-la.
            A imagem que as pessoas faziam de Bia não era de todo ruim. Em certos aspectos era até mesmo vantajosa, mas não era real e isso a incomodava demais. Sua “capa” não definia exatamente sua estória interior. Então resolveu que deveria mudar a “capa” de sua vida. Fez plástica, tratamento de pele, mudou a cor e o corte do cabelo, comprou novos  estilos de roupas, passou a sorrir mais e falar mais, porém seu título ainda era o mesmo... As pessoas com quem crescera continuavam a ligar um rótulo ao seu título, preferiam se apegar a imagem antiga que acreditar na nova capa e tentar descobrir quem, de fato, era Bia.
            Bia sentia como que se além dela mesma apenas mais uma ou duas pessoas realmente a conhecia; e as outras, bom, as outras preferiam ler o título e julgar a capa que se esforçar para ler seu real conteúdo.
            Em uma tarde quente e abafada, Bia nem ao menos saiu de casa, sentou-se em sua cama e começou a refletir acerca de toda sua vida. Teve a sensação de que vivera em função de outras pessoas... Como se todo esse tempo tivesse sido co-adjuvante de sua própria estória! Mas ela já estava cansada de tudo isso... E se esse livro fosse retirado da prateleira em que se encontrava? Ou melhor, e se esse livro fosse para uma livraria onde ninguém conhecia sua capa e nem ao menos seu título? E então as pessoas teriam que de fato lê-lo para conhecê-lo.
            Mal dormira, passara parte da noite em claro pensando e repensando. Até tentara ligar para alguém para conversar, mas já era tarde, não queria incomodar... Na manhã seguinte levantou-se cedo, colocou tudo o que conseguiu em duas malas e uma mochila e saiu deixando apenas um bilhete em cima da cama: “Vou reescrever minha história. Assim que me estabelecer volto para buscar o que restou. Amo vocês”
            Entrou no ônibus, sentou-se, respirou fundo e colocou o fone de ouvidos; ligou o MP3 e coincidentemente ouviu:
“I’ll spread my wings and I’ll learn how to fly
I’ll do what it takes till I touch the sky
I’ll make a wish, take a chance, make a change
And breakaway”
            Bia suspirou e sorriu enquanto uma lágrima escorria por seu rosto. Sentiria falta de tudo e de todos, mas na vida às vezes grandes sacrifícios são necessários para se libertar... E naquele momento era exatamente assim que se sentia: LIVRE!

quinta-feira, 24 de março de 2011

AMOR AO ACASO


Em sua sala, sentado em um pufe preto David dedilhava seu violão tentando terminar uma composição na qual trabalhara o dia todo. Era seu dia de folga e ele queria muito terminar esta canção. Mas David andava muito pensativo e isto estava atrapalhando sua concentração.
            David não era levado a sério por seus colegas que o achavam certinho demais. Ele não bebia, não fumava, não falava palavrão e era politicamente correto em tudo o que fazia. E apesar de ter um ótimo emprego e boa aparência também não era levado muito a sério pelas mulheres, afinal ele não era nada do tipo bad boy que a maioria das garotas procuram hoje em dia. Não curtia “ficar”, acreditava que intimidade física vinha depois de intimidade e comprometimento emocional... Até em casamento ele acreditava. Coisas que lhe garantiam apelidos como: careta, old school, nerd. Sem contar seu gosto por musica, filmes e livros diferente da maioria dos homens, por isso até de “maricas” já havia sido chamado.
“Será que um dia encontrarei meu grande amor?
Onde estará? Alguém me diga por favor””
            David não conseguia sair do refrão da música que compunha em seu momento de solidão, mas ele não é o único solitário do mundo... Lá fora milhares encontram-se em busca de um verdadeiro amor. Como Greta, por exemplo, farmacêutica recém-formada, inteligente, relativamente bonita e uma romântica assumida. Em seu carro, ela tentava encontrar um endereço estranho... Estava rodando pela cidade há uns vinte minutos.
            O garoto das entregas havia faltado e o chefe de Greta achou que ela deveria quebrar este galho. Mas ao que parecia nem ela e nem metade da cidade sabia onde ficava aquela casa.
“Quatro anos me matando com toda química, anatomia e tudo o mais para fazer entregas? Parece que não é só na vida amorosa que não tenho sorte!”
            Já fazia alguns meses que Greta saíra de um curto, porém complicado relacionamento, que a deixara absurdamente desapontada com homens de um modo geral!
- Sei sim, moça, o endereço que você procura fica há duas quadras daqui naquela direção.
            Finalmente alguém soubera indicar-lhe o caminho correto para sua última entrega do dia.
            Bateu a porta, mas ninguém respondera; insistiu novamente e ouviu uma musica que parecia vir de dentro da casa, encostou o ouvido na porta para ouvir melhor e então a porta se abriu:
- Pois não?
- Bo-Boa tarde.
            Greta ficou corada e absolutamente sem graça ao ver que aquele homem charmoso e cheiroso a tinha pegado no flagra ouvindo através da porta. Apresentou-se, mostrou a entrega em suas mãos e não sabia mais o que dizer.
- Gripe terrível esta que estou... Até tirei meu dia de folga. Entre, por favor, vou pegar o dinheiro.
            Ela nem sabia por que, mas aceitou o convite. Na verdade ela ainda teria que explicar toda a posologia dos medicamentos e esta era a sua desculpa mental por ter aceitado entrar. Então Greta ouviu seu celular tocar, levou algum tempinho para conseguir achá-lo em sua bolsa, mas finalmente o atendeu. Era seu chefe perguntando se ela havia conseguido encontrar o endereço da última entrega; ela disse que estava tudo sobre controle e já o avisou que dali iria embora para casa.
            E então o gripado mais cheiroso que ela já havia visto retornou a sala, ela explicou tudo certinho acerca dos remédios e quando já estava saindo avistou um violão atrás de um pufe; pensou em perguntar se ele tocava, mas achou que a pergunta poderia soar idiota ou invasiva demais e ela não queria deixar nenhuma das duas impressões.
            Assim que pegou a rua de sua casa, Greta se arrependeu de não ter puxado um papo com o gripado cheiroso e charmoso... ele parecia legal. Mas acabou se convencendo que não faria mais isso; entregaria nas mãos de Deus, e se Ele quisesse dar a ela um companheiro, Ele que desse um jeito. Ao chegar em casa lembrou-se que havia esquecido de dar um recado ao chefe, procurou seu celular na bolsa, mas não encontrou... “Onde será que eu deixei?”
            Enquanto isso, David pensava “garota simpática... e bonita... Amanhã ligo na farmácia avisando que seu celular está aqui... Ou levo pessoalmente a ela... Gosto de almoçar lá perto mesmo, de repente até a convido para almoçar comigo”.
Em sua casa Greta se deitava com uma canção na cabeça que nem ao menos sabia onde ouvira: “Será que um dia encontrarei meu grande amor?”
E David sentou-se novamente na sala, violão no colo, papel e caneta... Enquanto a maioria das pessoas dormiam David terminava de escrever a última frase da mais linda canção que já compusera então escreve o título: “Amor ao Acaso”